O tempo passou, e o algoritmo ainda não entendeu quem sou.
Gente, buguei o algoritmo.
Acredite: pra ele, eu sou um sheik milionário… que janta no self-service da rodoviária. Mas calma. Antes de te explicar esse bug, preciso te contar um pouco sobre mim.
Nasci na Zona Norte de São Paulo. Vida simples. Sem luxo, mas sem faltar nada. Estudei Publicidade na FAAP. Aos 22, abri minha agência.
Mas o algoritmo não entendeu.
Não tenho carro de luxo. Na verdade, odeio dirigir.
Comprar roupa pra mim? É obrigação, não prazer.
Restaurante caro? Me irrita mais do que encanta.
Mochilão pra Europa? Ainda é sonho, mas o câmbio ainda me assusta.
Mesmo assim, o algoritmo insiste.
Quando deslizo pelo Instagram, ele parece… perdido.
Sou impactado por coberturas de 3 milhões com vista infinita pro mar.
Dois segundos depois, um “coma à vontade por R$ 59,90”.
Tem churrasco, sushi, pizza, chope. Tudo junto. Um carnaval digestivo.
E o mais louco? Dá até pra entender como ele chegou lá.
Se você olhar de fora, parece que tudo faz sentido dentro do mesmo universo: o meu. Ou melhor… o que o algoritmo acha que é o meu.
Tem lógica, sim. Só que errou miseravelmente.
É como se ele estivesse tentando montar meu quebra-cabeça com peças de caixas diferentes. Tentando me entender. Sem me ouvir.
Semana passada, fui assistir Paradise, na Disney Plus. A história me pegou.
E aí… do nada… um anúncio de dois minutos invade a tela.
Que inferno. Um cruzeiro de luxo na Ásia. Privativo. Caríssimo.
Achei até engraçado. Por dois segundos.
Voltei pro episódio. Pá! Outra vez, o mesmo cruzeiro.
Quase como um lembrete de: "já garantiu o seu?"
Perdeu a graça. Não era só irritação. Era mais profundo.
Era perceber que a tecnologia, que deveria me entender, tava só me empurrando um molde.
E aí o ranço veio.
Do cruzeiro. Da Ásia. Da Disney. Da vida.
Do jeito que a gente tem feito marketing.
A lembrança ficou, claro.
Mas ficou em forma de rejeição.
E aí eu me pergunto: será que estamos fazendo direito?
Porque se o algoritmo tá nos jogando de cobertura de luxo pra rodízio duvidoso…
Se ele insiste num cruzeiro caríssimo pra quem paga Disney Plus com anúncio…
Então talvez o problema não seja a propaganda. É a falta de contexto.
Quer ver como poderia ser diferente?
Imagina você assistindo The Last of Us e recebendo uma oferta do jogo da série pra PS5. Ou vendo Black Mirror, e aparece um smartphone com funções bizarras, quase plausíveis.
Faz sentido. Faz ponte. Cria conexão.
Dá pra interromper, sim. Mas tem que ser com inteligência.
Com timing. Com empatia.
Então talvez a pergunta não seja “qual público queremos atingir”.
Mas sim: como a gente pode ser lembrado sem ser odiado?
Como criar conexão de verdade?
Como fazer marketing que ouve antes de falar?
E no meio disso tudo, uma dúvida sincera:
Sou eu que tô ranzinza?
Ou mais alguém aí também se irrita com essas propagandas em streaming?

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