Eu quase nunca prevejo o futuro. Só presto atenção.
Eu esqueço tudo. Sério.
Aniversário, nome (principalmente nome), o que eu fui fazer no celular…
A pessoa fala:
“Oi, sou o Marcelo”
Dois minutos depois eu:
Calma… começa com M…
Sou assim. TDAH clássico.
Um distraído profissional.
Agora vem a parte estranha.
A pessoa chega… dá um “oi” normal.
E eu já sei que não tá num bom dia.
No olhar,
no jeito,
no timing.
Não sei explicar. Eu só… sei.
A pessoa começa a falar
e eu já sei onde aquilo vai dar.
“Depois eu vejo isso”
Com esse humor? Vai demorar.
“Vamos marcar”
Não vamos.
Já ouvi que eu “gorei”.
Que eu “ziquei”.
Mas eu não ziquei nada.
Eu só tava vendo antes.
E isso que é estranho.
Porque eu continuo distraído.
Perco pedaço da conversa…
mas entendo o que tá acontecendo.
Eu não presto atenção no que a pessoa diz.
Presto atenção no que ela mostra.
E isso muda tudo.
Porque não é só prever.
É conduzir.
Às vezes eu mudo o jeito de falar.
Às vezes eu corto caminho.
Às vezes eu nem entro.
Porque eu já sei.
E sei muito bem que tem mais dos meus por aí. Talvez você mesmo.
Isso não é tão raro assim.
Tem muita gente que também lê antes.
No trabalho.
Na vida.
Nas relações.
Mas não fala. Morre com a informação.
Porque se fala, é o pessimista.
Se insiste, é o chato.
Se aponta, “complica”.
Então a pessoa vê…
e deixa acontecer.
E no trabalho isso aparece o tempo todo.
Projeto que já começou torto.
Reunião que já nasceu perdida.
Cliente que já não comprou a ideia…
mas ninguém teve coragem de dizer.
Você sente.
Mas finge que não viu.
Porque é mais confortável esperar virar problema do que lidar com ele quando ainda é pequeno.
E essa é a parte que cansa.
Porque não tem um botão pra desligar.
Jeito de responder.
Tempo de resposta.
Tom de voz.
Silêncio estranho.
Tudo vira pista.
Tudo.
E no meio disso tudo…
eu esqueço de responder mensagem.
Esqueço do compromisso.
Esqueço o que ia falar no meio da frase.
Quando a gente absorve além do que é dito, parece que nosso HD é enche mais rápido.
Difícil, né?!
Não é um superpoder inútil.
Não soa como um presente divino.
Mas sim como uma responsabilidade.
No final das contas, é um radar.
Que lê além do que se vê.
Me dá uma vantagem absurda, é verdade.
Mas cobra. E muito.
Porque quem não lê gente…
se surpreende.
Mas quem lê…
antecipa. Pelo menos, deveria.
E antecipar não é prever o futuro.
É ter coragem de falar
quando ainda dá tempo de mudar.
“Ihhh… hoje vai ter briga”.
Espero acontecer, ou viro o jogo?
“Parece que o cliente vai reclamar…”
Deixo rolar, ou ligo pra ele e me antecipo?
Não adianta perceber e não agir.
E você, sofre desse mal também?

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