Não tem jeito: criatividade não é telepatia.
Dá pra surpreender alguém que não sabe o que quer?
Às vezes, a resposta chega em forma de história. Tipo essa.
Você tá conhecendo alguém novo.
O clima é bom, a conversa flui, as trocas são leves.
Chega o aniversário da pessoa e, com toda a boa vontade, você pergunta:
“Tem algo que você goste?”
E ouve o clássico: “Me surpreenda.”
🎈 Você marca um passeio de balão. Ela tem medo de altura.
🦐 Agenda um restaurante de frutos do mar. Ela tem alergia a camarão.
🧁 Faz um bolo surpresa com cobertura tripla. Ela é intolerante à lactose e tá na low carb.
🎡 Compra ingresso pra uma roda-gigante com vista panorâmica. Ela tem labirintite.
🍖 Faz um churrasco completo. Ela é vegana. Militante.
No fim, você sai como insensível, sem tato, “nada a ver”.
Porque a expectativa era ser surpreendida, mas só se fosse do jeito que ela nunca disse.
A crítica vem com aquela certeza de quem te conhece há anos:
“Você não prestou atenção em mim.”
Mas poxa… foram dois encontros.
Conversas rasas. Mais riso do que conteúdo.
Redes sociais enigmáticas. Pouca foto, pouco texto.
Como surpreender quem se esconde até de si?
Agora troca o aniversário por um job.
Sai o presente, entra o briefing.
E o “me surpreenda” continua lá, só que agora, com CNPJ.
Você recebe um pedido vago. Urgente, claro.
Sem objetivo. Sem referência. Sem contexto.
Mas com expectativa de genialidade.
Rápido. Inesquecível. Preciso.
De preferência até amanhã.
Querem mágica com base em silêncio.
E cobram como se tivessem contado tudo.
Segundo a Rock Content, 71% dos profissionais de criação já receberam um briefing sem informação suficiente. E, pra piorar, 42% dizem que isso é comum. Nada fora do padrão.
Adivinha onde nasce o retrabalho?
Criatividade precisa de limite.
Surpresa exige direção.
Sem isso, o que era pra ser brilho vira só mais uma refação.
O problema nunca foi “falta de ideia”.
Foi sempre falta de clareza.
E você, já viveu um “me surpreenda” que virou pesadelo?
Conta aí. Vai que a gente ri junto pra não chorar separado.
PS: A culpa desse post é da Karine Sabino, que escreveu sobre isso com a lucidez que a gente finge que tem, mas evita exercitar.
Esse problema é mais recorrente do que parece.
E nesses quase 20 anos de Trammit Publicidade, aprendemos que não dá pra resolver só com talento e boa vontade.
Criamos uma metodologia que nos permite alinhar expectativas com técnica, atenção e carinho real pelo que fazemos. Porque surpreender só é possível quando quem cria tem por onde começar.
Mas me conta:
Você já recebeu aquele pedido vago, urgente e genial... sem nenhum contexto?
Me conta teu caos nos comentários.
É terapia em grupo, e a sessão tá aberta.

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