#ContosDeAgência: os desejos estão nas entrelinhas.
Todo conto tem um ponto.
Esse começou com cliente que pediu uma coisa…
mas precisava de outra.
#ContosDeAgência
…
Faltava uma hora até a reunião.
Dava tempo de almoçar.
Desde que fosse rápido.
Do outro lado da rua tinha um restaurante conhecido do pessoal do escritório. Preço de alta gastronomia. Gostinho de prato feito.
Fazer o que, né?!
Sentou na primeira mesa livre e chamou o garçom.
- Amigo, qual é o prato do dia?
- Filé mignon com batata sauté.
Mais do que perfeito.
- E quanto tempo fica pronto?
- Uns vinte minutinhos, senhor.
Ele fez a conta na cabeça. Dava.
- Então manda um desse. Ah… e uma água com gás com limão, por favor.
O garçom assentiu.
Só ouviu e não anotou nada.
Enquanto aguardava, abriu seu celular para checar as anotações para a reunião. Era um dia importante e sabia o quanto precisava estar afiado.
Foi quando bateu o olho no canto da tela e viu o horário.
Já tinha passado vinte minutos. E nem a água tinha chegado.
- Amigo… o filé já vai sair?
- Tá saindo, senhor. A casa hoje está bem movimentada.
Ele olhou em volta.
O restaurante parecia mais vazio do que cheio.
- E a água com gás com limão?
- Ah… claro. Já trago pro senhor.
Esqueceu. Inacreditável.
A maldita mania de não anotar.
A água chegou quase que instantaneamente.
Com gás.
Sem limão.
Pensou em reclamar, mas desistiu.
Nesse momento, já achava o pedido muito complexo para o garçom.
Um tempo depois, o prato chegou.
Demorou demais, mas não dava pra negar:
Estava caprichado.
E após tanto drama, abriu seu primeiro sorriso.
Foi quando cortou o filé…
O mignon mais bem passado da história, sem dúvida.
Pensou em questionar quem teve essa ideia de gênio.
Ou quem esqueceu de apagar o fogo.
Mas agora já não era mais sobre o ponto da carne.
Era sobre o tempo. Vinte minutos para começar a reunião.
O que era prazer virou uma gincana amarga.
Engoliu cada pedaço como se fosse uma ração sem sabor algum.
Entre goles daquela água com gás…
Sem a porra do limão.
Enfim, deu a última garfada.
Quando ia levantar a mão para pedir a conta, riu de si mesmo.
Imagina o desafio que seria para aquele homem cumprir essa tarefa?
Foi direto ao balcão, pagou e saiu quase correndo.
Enquanto apressava os passos até o elevador, balançava a cabeça.
“Gente… eu só queria comer em paz.”
E talvez essa seja a parte mais curiosa desse conto trágico.
Na vida, quase nenhum pedido é apenas o pedido.
Quando alguém te chama para conversar, não é sobre bater papo.
É sobre ser ouvido. Sobre confiança.
Quando alguém em casa pede ajuda, muitas vezes não é só uma mãozinha.
É sobre atenção. Sobre cuidado.
Quando um cliente reclama de algo, quase nunca é sobre você.
É sobre expectativa. Sobre a experiência que ele imaginou.
Entenda: o pedido quase nunca é o pedido.
Ele é só a superfície.
E quando ninguém presta atenção nisso, acontecem cenas como essa do restaurante.
Não era sobre o prato do dia.
Mas sobre “Quanto tempo demora?”.
E quando ninguém lê as entrelinhas…
Até um filé mignon fica sem graça.

0 Comments Adicionar um comentário?