Adolescência não fala sobre um crime. Fala sobre abandono.
Acabei de assistir a série Adolescência e foi como um soco no estômago.
Mas não só no meu: a minissérie se tornou a mais assistida da história da Netflix, com mais de 96 milhões de visualizações em 3 semanas.
Mas o número mais impactante não é esse.
É o silêncio que ficou depois de terminar.
Porque mais do que contar a história de um menino de 13 anos acusado de matar uma colega…
a série expõe algo que todo mundo sente, mas evita falar:
a gente perdeu de vista uma geração inteira.
De quem é a culpa?
Dos pais?
Da escola?
Da tecnologia?
Da sociedade que não escuta?
Talvez não haja um culpado.
Mas há um vácuo.
E esse vácuo está sendo ocupado.
Hoje, grande parte da adolescência acontece em lugares que a gente não enxerga Não é exagero — é invisibilidade.
Eles estão em canais de YouTube sem moderação, em fóruns que incentivam violência e misoginia, em comunidades fechadas que romantizam o sofrimento, em perfis que usam humor como escudo pra discurso de ódio.
Eles encontram ali pertencimento.
Narrativas. Linguagem. Um “nós” que acolhe.
E isso é forte.
Porque a adolescência não busca lógica.
Busca afeto, referência e grupo.
E se o grupo mais próximo está num submundo digital… é pra lá que eles vão.
Agora alguns dados que ajudam a enxergar melhor essa névoa:
– 81% dos adolescentes brasileiros usam redes sociais como principal fonte de informação (Fonte: TIC Kids Online, 2023)
– 72% consomem conteúdo de criadores que os pais não conhecem
– 47% já participaram de grupos fechados ou fóruns sobre temas sensíveis, como saúde mental, violência ou relacionamentos tóxicos
– 38% já receberam conteúdo de ódio ou misoginia disfarçado de humor
– A maioria nunca contou isso pra ninguém
Esses números não são pra gerar medo.
São pra gerar presença.
Escuta.
Atenção verdadeira.
E é só no final dessa conversa que vale levantar uma pergunta pra quem trabalha com comunicação, conteúdo, marca ou influência:
Será que estamos usando nossa voz com a consciência que deveríamos?
Porque, sim — quem aparece com frequência, influencia.
Mesmo sem intenção.
Mesmo sem saber quem está assistindo.
Marcas, agências, criadores…
Todos fazem parte do ambiente digital que forma essa geração.
E talvez a maior oportunidade de se destacar hoje não seja falar mais alto.
Mas falar com mais consciência.
Estar por perto.
Abrir conversa.
E, quem sabe, ser uma boa referência quando ninguém mais está olhando.

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