← Voltar

A tecnologia facilitou tudo. Inclusive nossa dependência.

Bastou acabar a luz pro mundo parar.
E foi aí que eu percebi: a gente não tá preparado pra escuridão.

O futuro que a gente tanto quis é prático, ágil e brilhante.
Mas também é frágil. Assustadoramente frágil.

Colocamos tudo na tomada, e depois no wi-fi.
Criamos assistentes virtuais, entregadores por app, inteligência artificial.
Pagamos contas, pedimos almoço, reservamos passagens, presente de última hora. Colocamos tudo numa caixinha que, com luz e internet, resolve nossa vida: o tal do celular.

Incrível o nosso poder de simplificar a vida.
A tecnologia, quando bem empregada, acelera nossos passos.

Só esquecemos de um detalhe:
Treinar a mente pro dia em que tudo se apaga.
É, gente. Esquecemos completamente de existir no escuro.

__
Era 14h quando a agência escureceu de vez.
Uma queda rápida, quase silenciosa. E, de repente, tudo parou.
O job, o Wi-Fi, o call e a cabeça.

O notebook virou bomba-relógio.
Cada ideia custava bateria. Cada minuto virava angústia.

Tinha um call importante às 16h.
E faltava pouco pra finalizar a apresentação quando tudo apagou.

E agora? Paralisei. Acredite, toda solução caía no mesmo problema:
Falta de energia.

57%. Esse era o tempo que eu tinha pra desarmar a bomba.
“Mato isso em 20 minutos. Dou conta”.
Tá, mas de que adianta uma apresentação fantástica sem bateria para o call?

Chegou a hora de ativar o plano B: meu celular.
Uns 40% de bateria. E, sem energia, só nos restava o 4G.
Só de pensar nisso, já imaginei a ligação travando e o cliente respirando fundo.

Paralisei pela segunda vez.
Levantei bufando, e fui buscar minha fuga tradicional: um café gigante bem quente. Peguei a cápsula, coloquei na Nespresso... e lembrei:
Sem energia, sem café.

Inacreditável. O que aconteceu com o velho café coado?
Admito, bateu nostalgia.

Em meio a minha indignação, veio a simples ideia. Estava na minha cara:
“Pessoal, tô indo pra casa. Chego em 35 minutos.”
Era isso. Bastava achar um lugar que tenha luz. Simples.

Cheguei na minha casa iluminada, com internet tinindo.
Abri o notebook, finalizei tudo e entrei no call.
Foi tudo aprovado de primeira.

“Com tudo funcionando, somos imbatíveis.”
O plano deu certo: quando a luz está presente, tudo flui.

Mas tem coisa aqui dentro que segue meio apagada até agora.
Talvez a real queda não tenha sido da energia.
Foi da ilusão de que estamos no controle.

Você pode até acender uma vela.
A luz ilumina, mas não conecta.

E aí vem a pergunta que não quer calar:
Será que a gente ainda sabe existir fora da internet?
Parece que não.

De acordo com o relatório global da We Are Social com a Meltwater,
somos o segundo país com maior tempo de uso da internet do mundo, com uma média de 9 horas e 13 minutos por dia.

A sensação é que a gente tá voando no modo online,
e atrofiando no offline.

E você? Já passou por um apagão assim?
Me conta aqui. Vai que a gente ri desse colapso coletivo.